Aspectos históricos

O facto de diversas civilizações, muito cedo na sua história, terem elaborado algum tipo de bebida alcoólica é atribuído à ampla difusão de dois elementos essenciais para fermentação alcoólica: açúcares (constituintes das plantas) e leveduras. Na sequência, terá surgido a produção de bebidas espirituosas, como a aguardente vínica, cujo cerne é a operação de destilação (Russell et al., 2003).

A origem da destilação alcoólica é objeto de controvérsia. Alguns historiadores defendem que é conhecida desde a Antiguidade tanto na região Mediterrânica como no Extremo Oriente (Plouvier, 2008). Segundo outra corrente, a prática da destilação terá começado na China, onde o seu segredo se manteve até ao início da Era Cristã (Russell et al., 2003).

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A arte da destilação terá sido então aprendida pelos árabes, que criaram o primeiro alambique capaz de originar uma destilação eficiente a partir do vinho. Foi este povo que a difundiu na Europa (séc. VIII – séc. XV), onde suscitou grande interesse por parte de alquimistas e monges, que a aplicaram na produção de essências e de aguardentes. Pensa-se que as primeiras aguardentes foram elaboradas a partir de matérias-primas ricas em açúcar, principalmente uvas e mel. A estes destilados eram atribuídas propriedades medicinais, quase místicas, de prolongar a vida. Por esse motivo, foi-lhes atribuido o nome latino aqua vitae, com o significado de “água da vida”. Dele deriva o nome que recebeu em França - eau-de-vie - referido no “Traité sur la conservation de la jeunesse”, escrito em 1250 por Arnaud de Villeneuve, professor da Universidade de Medicina de Montpellier, médico do Papa Clemente V e discípulo da célebre escola árabe de Salerno (Garreau, 2008). A designação “aguardente” terá derivado do termo aquam ardentem, usado pelos alquimistas (Basset, 1873).

Fonte da imagem:http://www.rosamystica.fr/l-alchimie-au-moyen-age-c27755034

  

alambiqueFonte da imagem: Léauté (1990)

Os equipamentos de destilação

A palavra “alambique” provém do termo grego ambix, usado para designar um vaso com uma pequena abertura, que era parte do equipamento de destilação.

Os árabes converteram o termo em ambic e passaram a chamar Al ambic ao equipamento de destilação.

Os primeiros alambiques eram formados simplesmente por um recipiente fechado, aquecido, um condensador, e um recetáculo para receber o destilado. O seu aperfeiçoamento, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, contribuiu para o aumento substancial da eficiência da destilação, até dar origem ao alambique que é hoje utilizado na produção da aguardente vínica.

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Assistiu-se ainda ao desenvolvimento de outro tipo de equipamento de destilação: uma coluna constituída por uma série de câmaras de vaporização empilhadas, que permitia aumentar o rendimento em álcool (Russell et al., 2003). No século XIX, já existiam em França, designadamente na região de Armagnac, colunas de destilação a funcionar em modo contínuo (Garreau, 2008).

 Fonte da imagem: http://www.collections.musee-bretagne.fr

 

A aguardente vínica das principais regiões de produção

As primeiras referências à aguardente vínica oriunda de Armagnac remontam ao século XII (Garreau, 2008), enquanto as menções à aguardente vínica produzida na região de Charentes (Cognac) datam da segunda metade do século XVI. Os registos históricos revelam ainda que, nessa época, parte do vinho produzido na região de Charentes era comprado por mercadores holandeses e ingleses que o destilavam nos seus países, atribuindo ao destilado o nome de “brandwijn” (vinho queimado) e de “brandy”, respetivamente. Um século mais tarde, a aguardente elaborada na região passou a ser importada diretamente, o que deverá ter contribuído para impulsionar a sua produção (Cantagrel, 2008).

Em Portugal, as primeiras alusões à aguardente vínica (1620) encontram-se associadas à sua utilização na produção do Vinho do Porto (Belchior et al., 2015). A história une igualmente a aguardente vínica produzida na Lourinhã à beneficiação deste vinho generoso.

A Lourinhã ostenta uma longa tradição vitivinícola, como atesta a carta de Foral (séc. XII) concedida por D. Jordão, com autorização de D. Afonso Henriques, aos moradores desta região (Ghira, 2004). Já no século XX, no Contributo para o Cadastro dos Vinhos Portugueses (1942), da então Junta Nacional do Vinho, é referido que “O concelho da Lourinhã encontra-se subordinado economicamente à produção vitivinícola, ainda que factores locais tivessem criado à sua volta a indústria da destilação”. No documento são ainda reportados registos significativos para este concelho: 651 vinicultores; 16 176 hectares de vinha; produção total de 16 711 pipas de vinho, sendo 76 % destinado à destilação e o restante para consumo em natureza (17 % de vinho branco e 7 % de vinho tinto).


Basset N., 1873. Guide théorique et pratique du fabricant d’alcools et du distillateur, 822 p, Librairie du Dictionnaire des Arts et Manufactures, Paris.

Belchior A.P., Canas S., Caldeira I., Carvalho E.C., 2015. Aguardentes vinícolas - Tecnologias de produção e envelhecimento. Controlo de qualidade, 181 p, Porto.

Cantagrel R., 2008. La qualité et le renom du Cognac dans le monde, sa place dans l’historie. In: Les eaux-de-vie traditionnelles d’origine viticole, 16-38, Bertrand A. (Ed.), Lavoisier Tec & Doc, Paris.

Garreau C., 2008. L’Armagnac. In: Les eaux-de-vie traditionnelles d’origine viticole, 39-62, Bertrand A. (Ed.), Lavoisier Tec & Doc, Paris.

Ghira J.C., 2004. Vinhos da Estremadura – Enciclopédia dos Vinhos de Portugal, 183p, Chaves Ferreira –Publicações S.A., Lisboa.

Léauté R., 1990. Distillation in alambic. American Journal of Enology and Viticulture, 41, 90-103.

Plouvier L., 2008. Aux origines de la distillation. In: Les eaux-de-vie traditionnelles d’origine viticole, 3-14, Bertrand A. (Ed.), Lavoisier Tec & Doc, Paris.

Russell I., Stewart G., Bamforth C., Russell I., 2003. Whisky: Technology, production and marketing. Handbook of alcoholic beverages series, 384 p, Academic Press, London.

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